01/09/2014

DOS LIVROS NO CINEMA

Fonte: Feira do Livro do Porto”, no Facebook, 22.08.2014.


“DOS LIVROS NO CINEMA”
Feira do Livro do Porto apresenta
ciclo sobre a representação cinematográfica do livro
  
«A Câmara Municipal do Porto organiza pela primeira vez a Feira do Livro e atribuiu-lhe o tema “Liberdade e Futuro”. Do vasto programa cultural faz parte um ciclo de cinema, onde os filmes escolhidos colocam em jogo e questionam diferentes aspetos e práticas em torno dos livros: a memória, a ideologia, a leitura, a fé, a loucura, a criação, a fantasia e o saber.

«O ciclo - que decorrerá no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, situado na Avenida das Tílias (jardins do Palácio de Cristal), onde estarão instalados os pavilhões da Feira do Livro - foi denominado “Dos Livros no Cinema” e visa compendiar uma série de obras nesta categoria, oferecendo material para um debate em torno da representação cinematográfica do livro, da sua física e da sua metafísica.

«Procurando uma grande amplitude - geográfica (da Dinamarca aos Estados Unidos, passando por França, Portugal e Egipto), temporal (do mudo ao contemporâneo) e estilística (de Dreyer a Minnelli) – Dos Livros no Cinema pretende tecer um discurso (e dar nascimento a outros) sobre o livro e a já extensa carta de amor que o cinema lhe escreveu ao longo de um século.

«O âmbito do ciclo não será apenas arquivístico e historiográfico, mas também de indagação do futuro: numa era em que a leitura digital ganha terreno - na vida e no cinema - propõe-se uma discussão, através das intervenções dos convidados que apresentarão cada filme, sobre o lugar que o livro poderá continuar a ter no nosso mundo, as suas novas declinações, a sua sempre renovada importância.

«A entrada nas sessões é livre, tal como em todos os eventos culturais que decorrerão na Biblioteca e Galeria Municipal no âmbito da Feira do Livro do Porto.

«A Feira do Livro do Porto, que pela primeira vez em mais de 80 anos é organizada diretamente pela autarquia, conta este ano com mais de 100 pavilhões de exposição contando com dezenas de editoras, livreiros e alfarrabistas.

«Além da venda de livros, a Feira do Livro do Porto de 2014 contará com um ciclo de debates, exposições, um festival de “Spoken Word”, performances musicais, um ciclo de cinema e muita animação, o que a transformam num dos maiores festivais literários jamais realizados em Portugal.

“DOS LIVROS NO CINEMA”

Organização da Câmara Municipal do Porto
Programação - António Costa & David Pinho Barros
De 7 a 21 de Setembro de 2014
Local - Biblioteca Municipal Almeida Garrett

PROGRAMA


Sessão 1. - Três curtas-metragens

Domingo, 7 set., 21h30
 Apresentadores convidados: João Botelho e Mariana Ferreira

Toute la mémoire du monde
Realização: Alain Resnais. Argumento: Rémo Forlani
França, 1956. Duração: 21’

Somos Livros
Realização e argumento: Mariana Ferreira
Portugal, 2013. Duração: 45’

Se a memória existe
Realização: João Botelho. Argumento: Manuel António Pina
Portugal, 1999. Duração: 25’

«Esta sessão reúne três obras que pensam o livro enquanto arquivo e potenciador de memória. Em Toda a Memória do Mundo, Resnais constrói um ensaio fílmico sobre os limites do conhecimento, a sua conservação no formato escrito e a responsabilidade da transmissão da memória humana. Em Somos Livros, Mariana Ferreira filma e interroga a memória dos livreiros e editores independentes de Portugal. Finalmente, em Se a Memória Existe, João Botelho responde a uma encomenda para a comemoração dos 25 anos do 25 de Abril com uma representação da leitura do livro O Tesouro de Manuel António Pina, levantando questões fulcrais sobre as possibilidades de transmissão às gerações futuras de uma experiência coletiva marcante.»

Sessão 2. - Fahrenheit 451

Terça-feira, 9 set., 21h30
Apresentador convidado: Pedro Abrunhosa

Fahrenheit 451
Realização: François Truffaut. Argumento: F. Truffaut e Jean-Louis Richard
Reino Unido, 1966. Duração: 112’

«Fahrenheit 451 foi o único filme que François Truffaut realizou fora do seu país. Nele, o cineasta executou uma brilhante adaptação do romance homónimo de Ray Bradbury, situado num futuro hipotético onde os livros e a leitura são proibidos. Guy Montag é um dos bombeiros responsáveis pela destruição dos livros descobertos pela polícia do estado e exerce a sua profissão sem qualquer má consciência. O encontro com Clarisse, uma leitora clandestina, vai mudar por completo esta realidade. Mais atual do que nunca, Fahrenheit 451 é uma extraordinária reflexão sobre a digitalização da sociedade, a morte do livro, a censura da arte e o controlo estatal sobre as opções individuais.»

Sessão 3. - Ciclo As Cinzas de Pasolini

Quarta-feira, 10 set., 21h30
Apresentador convidado: Roberto Chiesi (Diretor, Cineteca Bologna)
Em parceria com o festival Cinecoa

Che Cosa Sono le Nuvole?, La Terra Vista dalla Luna, La Ricotta
Realização e argumento: Pier Paolo Pasolini
Itália, 1968, 1967, 1963. Duração: 22’, 30’, 35’

Sessão 4. - Páginas do Livro de Satanás

Sábado, 13 set., 21h30
Apresentador convidado: Sousa Dias

Blade af Satans Bog
Realização: Carl Theodor Dreyer. Argumento: Edgar Høyer
Dinamarca, 1920. Duração: 157’

«Filme mítico e raro de Carl Theodor Dreyer, que trabalha o livro enquanto símbolo de fé e fonte de conhecimento divino. Nele, Satanás é banido do Céu e condenado a uma deambulação pela Terra. Para poder regressar, terá que propor aos Homens uma série de tentações, sendo que a cada cedência verá a sua pena alargada por mais cem anos. Se, pelo contrário, encontrar resistência, mil anos serão retirados à punição. Vagamente baseado no romance The Sorrows of Satan da escritora escocesa Marie Corelli e inspirado na estrutura narrativa segmentada de Intolerance de Griffith, Páginas do Livro de Satan é uma das obras mais místicas do austero cineasta dinamarquês.»

Sessão 5. - A Divina Comédia

Terça-feira, 16 set., 21h30
Apresentador convidado: António Preto

A Divina Comédia
Realização e argumento: Manoel de Oliveira
Portugal/França/Suíça, 1991. Duração: 140’

«N’A Divina Comédia de Manoel de Oliveira, os livros são os porta-vozes de uma série de pacientes de um hospício que se veem como figuras bíblicas ou literárias: Jesus, Lázaro, Marta, Maria, Adão, Eva, Sónia, Raskolnikov, Aliosha e Ivan Karamasov, Santa Teresa d'Ávila, um filósofo, um poeta. As leituras são a sua comunicação e estão ao serviço dos principais questionamentos formulados pelo filme: o que são o bem e o mal, onde estão a santidade e o pecado. Com uma excecional fotografia de Ivan Kozelka, A Divina Comédia foi nomeado para o Leão de Ouro e vencedor do Grande Prémio do Júri do Festival de Veneza de 1991.»

Sessão 6. - Deus Sabe Quanto Amei

Quarta-feira, 17 set., 21h30
Apresentador convidado: Rui Reininho

Título original: Some Came Running
Realização: Vincente Minnelli
Argumento: John Patrick e Arthur Sheekman
Estados Unidos, 1958. Duração: 137’

«Um dos mais reverenciados filmes de Minnelli, cineasta aclamado nos Estados Unidos e na Europa pelos seus icónicos musicais, Deus Sabe Quanto Amei apresenta a história de um veterano do exército que chega à sua cidade natal, Parkman, depois de ter sido deixado, ébrio, numa camioneta em Chicago. Na bagagem, livros de Hemingway, Steinbeck, Faulkner, Fitzgerald e Wolfe, e a vontade de escrever. No entanto, a vida da literatura e a das ruas de Parkman não são coincidentes, e iniciar uma carreira como escritor não se revela fácil. O filme de Minnelli, executado com um sublime aproveitamento das potencialidades da Metrocolor, questiona, assim, o ato de criação literária e a génese do livro.»

Sessão 7. - Gwen, O Livro de Areia

Sábado, 20 set., 11h00
Apresentador convidado: Abi Feijó

Título original: Gwen, le Livre de Sable
Realização: Jean-François Laguionie
Argumento: Jean-François Laguionie e Jean-Paul Gaspari
França, 1985. Duração: 67’

«Jean-François Laguionie é um dos mais respeitados cineastas de animação franceses, tendo iniciado a sua carreira com três curtas-metragens nos anos 60, todas vencedoras de prémios em festivais internacionais. Em Gwen, O Livro de Areia, a sua primeira longa-metragem, constrói uma complexa narrativa em torno de uma tribo nómada num mundo pós-apocalíptico, tentando proteger, por bizarros caminhos, as tradições das civilizações antigas. O livro ocupa uma posição central nesta reflexão de Laguionie, constituindo, simultaneamente, um recetáculo da memória humana e uma catapulta para outros mundos fantásticos. O filme foi o vencedor do Festival de Los Angeles, bem como do grande prémio da crítica do Festival de Annecy.»

Sessão 8. - A Leitora

Quarta-feira, 10 set., 21h30
Apresentador convidado: Rosa Maria Martelo


Título original: La Lectrice
Realização: Michel Deville
Argumento: Michel Deville e Rosalinde Deville
França, 1988. Duração: 97’

«Em A Leitora, Michel Deville utiliza um mecanismo de mise en abyme para contar a história de uma rapariga que lê o romance La Lectrice de Raymond Jean e que se apaixona de tal forma pela protagonista que decide adotar a sua profissão: a de leitora ao domicílio. Os clientes são muitos e, por diferentes razões, pedem-lhe que lhes recite Sade, Marx, Tolstói, Maupassant ou Duras. A partir deste jogo e recorrendo a notáveis subtilezas irónicas, o filme coloca em marcha um inovador dispositivo de questionamento da leitura e do papel do livro na vida humana, tanto a nível individual como gregário. Foi o vencedor do prémio Louis Delluc.»

Fontes:
  • Feira do Livro do Porto”, no Facebook, 22.08.2014. – Texto apresentado com ligeiras alterações, de forma.
  • Iconografia dos filmes obtida na Internet, através do Google.

16/06/2014

O sortilégio verbal de Zetho

Zetho Cunha Gonçalves
Fotografia do seu perfil no Facebook, 27.01.2011

Quem frequentou recentemente a 84.ª Feira do Livro de Lisboa [29 de maio – 15 de junho], pôde cumprimentar e mesmo conversar francamente com o poeta Zetho Gonçalves. O escritor angolano, a viver em Portugal, marcou presença no pavilhão da Livraria Letra Livre, autografando o mais fresco dos seus livros – Notícia do maior escândalo erótico-social do século xx em Portugal –, a par de Terra: Sortilégios, Rio sem Margem: Livro II, estes dois livros com chancela da NósSomos, editora motivada na divulgação da poesia angolana.
Afável, iluminado por um sorriso jovial e o lume do cigarro – lembro também o cabelo cascatando em ondas, dominadas mas livres – o escritor acolheu-nos com toda a disponibilidade e interesse, abonado de ideias, histórias, projetos. O que publicamos aqui não é a conversa informal ocorrida nesse encontro, mas um esboço da vida e obra do escritor.

A VIDA

Zetho Cunha Gonçalves, nasceu na cidade do Huambo, em Angola, a 1 de Julho de 1960. Passou a infância e adolescência no Cutato (pequena povoação na Província do Cuando-Cubango, a que chama a sua “pátria inaugural da Poesia”).
Estudou no Colégio Alexandre Herculano, na cidade do Huambo, e Agronomia na extinta Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, em Portugal.
Poeta, autor de literatura infanto-juvenil, antologiador, tradutor de poesia e organizador de edições literárias, exerceu várias profissões: de tratador de gado numa fazenda a empregado de escritório, de vendedor de publicidade e publicitário a diretor adjunto de um jornal de turismo falido, de empregado de mesa em restaurantes e pesquisador de notícias para uma empresa da especialidade a intermediário e conselheiro de bibliófilos.


Publicou os seguintes livros de poesia: Exercício de escrita (1979), Coração limite/Sobre a sombra do corpo (1981), A construção do prazer/Reportagem do silêncio (1981), O incêndio do fogo, (1983), O outro mapa da Terra (1997), O voo da serpente (19989, A palavra exuberante (2004), Sortilégios da Terra: Canto de narração e exemplo (2007), Rio sem margem: Poesia da tradição oral (2011), Terra: Sortilégios (2013), Rio sem margem. Poesia da tradição oral: Livro II (2013), Noite vertical (no prelo).

De literatura infantil e juvenil publicou: Debaixo do arco-íris não passa ninguém (poemas, 2006), A caçada real (teatro, 2007); Brincando, brincando, não tem macaco troglodita (poemas, 2011), A vassoura do ar encantado (estória, 2012), Dima, o passarinho que criou o mundo: mitos, contos e lendas dos países de língua portuguesa (antologia, 2013) e A galinha-de-Angola que punha os ovos no telhado (poemas, no prelo).

Traduziu poesia de Antonio Carvajal, Vicente Huidobro, William Carlos Williams, Joan Brossa, Rainer Maria Rilke e Friedrich Hölderlin e organizou edições de obras de Mário Cesariny, Luís Pignatelli, António José Forte, Natália Correia, Eça de Queiroz (em colaboração com Eduardo Coelho), Fernando Pessoa, Luís Carlos Patraquim e Manuel de Castro.
Organizou as seguintes antologias: 35 Poemas para 35 anos de independência (2010), Antologia do conto africano de língua portuguesa (ed. brasileira, no prelo), Antologia do conto angolano (em colab. com João Melo, no prelo), Antologia da poesia angolana: 1849-2009 (em col. com Rosário Fernandes, no prelo), Poesia africana de língua portuguesa (em col. com Luís Carlos Patraquim, a publicar), Os 47 poemas de vida de Fernando Pessoa (a publicar).
É membro da Comissão Executiva da revista eletrónica Mulemba – Revista de Estudos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e tem colaboração dispersa por jornais e revistas de Angola, Brasil, Espanha, Itália, Moçambique e Portugal. Tem participado em vários colóquios e encontros literários em Portugal, Brasil, Itália e Cuba.
Está representado em diversas antologias coletivas e as suas obras estão traduzidas para alemão, espanhol, hebraico e italiano.

Vive atualmente em Lisboa, dedicando-se inteiramente à literatura.

A OBRA


1. Poesia

  1. Exercício de escrita (1979)
  2. Coração limite/Sobre a sombra do corpo (1981)
  3. A construção do prazer/Reportagem do silêncio (1981)
  4. O incêndio do fogo (1983)
  5. O outro mapa da Terra (1997, ed. manuscrita, exemplar único)
  6. O voo da serpente (1998, ed. manuscrita, 12 exemplares, com quatro desenhos do autor)
  7. A palavra exuberante. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004.
  8. Sortilégios da Terra: Canto de narração e exemplo. Fot. João Prates. Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2007.
  9. Rio sem margem: Poesia da tradição oral [livro I]. V. N. de Cerveira / Luanda: NósSomos, 2011. / Ed. brasileira: Rio sem margem. Poesia da tradição oral africana. Il. Thais Beltrame. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 2013. 
  10. Rio sem margem: Poesia da tradição oral. Livro II. V. N. de Gaia / Luanda: NósSomos, 2013.
  11. Terra: sortilégios. Vila Nova de Cerveira / Luanda: NósSomos, 2013. 
  12. Noite vertical (2014). 

2. Literatura infanto-juvenil (poesia, teatro e fição)

Debaixo do arco-íris não passa ninguém (poemas). Il. Roberto Chichorro. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006. / ed. brasileira: Rio de Janeiro: Língua Geral 2012?.

A caçada real (teatro para crianças). Il. Roberto Chichorro. Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2007 / São Paulo: Matrix, 2011 / Maputo: Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa, 2013.
    Brincando, brincando, não tem macaco troglodita (poemas). Il. Roberto Chichorro. São Paulo: Matrix, 2011.

    A vassoura do ar encantado (estória). Il. Andrea Ebert. Rio de Janeiro: Pallas Ed., 2012.
    Dima, o passarinho que criou o mundo: Mitos, contos e lendas dos países de língua portuguesa (antologia). Il. Angelo Abu. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 2013.
    A galinha-de-Angola que punha os ovos no telhado (poemas). Il. Mariana Fontes. Rio de Janeiro: Língua Geral, (no prelo).


    3. Tradução

    1. Antonio Carvajal, O desejo é uma água [ed. bilingue]. Il. Antonio Jimenez. Lisboa: Edições Prates, 1998.

    2. Vicente Huidobro, Altazor: Canto II, 2012.

    3. William Carlos Williams, Poemas, 2012.

    4. Joan Bross, 20 Poemas, 2012.

    5. Rainer Maria Rilke, 15 poemas, 2012.

    6. Friedrich Hölderlin, Sete poemas, 2012.





      4. Edição literária

      • CESARINY, Mário, Corpo visível. Il. Pedro Oom. Lisboa: Prates, 1996. 
      • PIGNATELLI, Luís, Obra poética. Lisboa: & etc., 1999. 
      • FORTE, António José, Uma rosa na tromba de um elefante, [1.ª ed., Lisboa: Afrodite, 1971], des. Aldina, 2.ª ed., Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2001. 
      • FORTE, António José, Uma faca nos dentes, [1.º ed., Lisboa: & Etc, 1983], 2.ª ed. aumentada – “Obra Poética Completa”, pref. Herberto Helder; des. e fotografias Aldina, Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2003. 

      • CORREIA, Natália, Breve história da mulher e outros escritos, pref. Maria Teresa Horta. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2003 / 2.ª ed., 2003. 
      • CORREIA, Natália, A estrela de cada um. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004. 
      • SOUSA, Antónia de; Bruno da Ponte; Dórdio Guimarães; e Edite Soeiro, Entrevistas a Natália Correia. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004. 
      • CORREIA, Natália, Contos Inéditos e crónicas de viagem. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2005. 

      • QUEIROZ, Eça de; Ramalho Ortigão, Os brasileiros, em col. com Eduardo Coelho. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2008. 
      • PESSOA, Fernando, Contos, fábulas & outras ficções, 2008 / Trad. italiana de Virgina Caporalli, sob o título La vita non basta. Racconti, favole e altre prose fantastiche. Roma: Vertigo, 2010. 
      • PATRAQUIM, Luís Carlos, Impia scripta [crónicas e ensaios]. Maputo: Alcance Ed., 2011. 
      • PESSOA, Fernando, Contos completos: fábulas & crónicas decorativas. Lisboa: Antígona, 2012 / 2.ª ed., 2013./ Ed. brasileira sob o título Um grande português. Contos, fábulas & outras histórias. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2012. 
      • PATRAQUIM, Luís Carlos, Manual para incendiários e outras crónicas. Lisboa: Antígona, 2012. 
      • CASTRO, Manuel de, Bonsoir, Madame, Lisboa: Língua Morte / Alexandria, 2013. 
      • PESSOA, Fernando et al., Notícia do maior escândalo erótico-social do século XX em Portugal, org., pref. e notas de Zetho Cunha Gonçalves Lisboa: Livraria Letra Livre, 2014. PATRAQUIM, Luís Carlos, O senhor Freud nunca foi a África, de Luís Carlos Patraquim (no prelo).

      5. Organização de antologias

      1. 35 Poemas para 35 anos de independência. Luanda, 2010.
      2. Antologia do conto africano de língua portuguesa [ed. brasileira], no prelo.
      3. Antologia do conto angolano (em col. com João Melo), no prelo.
      4. Antologia da poesia angolana: 1849-2009 (em col. com Rosário Fernandes), no prelo.
      5. Poesia africana de língua portuguesa (em col. com Luís Carlos Patraquim), a publicar.
      6. Os 47 poemas de vida de Fernando Pessoa, a publicar.

      6. Ensaio, crítica, crónica...

      1. Posfácio a: Estórias de coisas / José Alberto Marques. Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2008.
      2. «Prefácio a uma Antologia do Conto Angolano» [Antologia do Conto Angolano, coautoria com João Melo, Alfragide: Caminho, data?], in Buala – portal online, 06.09.2010.
      3. «Mukanda ao Ruy Duarte de Carvalho», artigo, in Mulemba – Revista de Estudos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa [online], n.º 3, Rio de Janeiro: Universidade Federal, dez. 2010; publicado antes em Buala – portal online, 25.08.2010.
      4. «A arte da felicidade é uma soma de cores noctívagas – sobre Roberto Chichorro», in Buala – portal online, 20.11.2010.
      5. «zefanias plubius sforza, um moçambicano com qualidades» [sobre romance de Luís Carlos Patraquim], artigo, in Mulemba – Revista de Estudos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa [online], n.º 3, Rio de Janeiro: Universidade Federal, dez. 2010.
      6. «Rio, Tambula Muxima I», crónica, in Cultura: Jornal angolano de artes e letras [online], 09.06.2012. 
      7. «Rio, Tambula Muxima II», crónica, in Cultura: Jornal angolano de artes e letras [online], 24.06.2012.


      7. Representação em antologias coletivas e obras individuais

      1. Vozes poéticas da lusofonia / Luís Carlos Patraquim, 1999.
      2. Sonhos d’agora e também d’outros tempos / Roberto Chichorro, 2009.
      3. Divina música: Antologia de poesia sobre música / Amadeu Baptista, 2009.
      4. «A voz da poesia que lê», in Pensando África. Literatura, arte, cultura e ensaio, org. Carmen Lucia Tindó Secco, Maria Teresa Salgado e Silvio Renato Jorge, 2010.
      5. Coletânea Prémio OFF FLIP de Literatura 2009 – org. de Ovídio Poli Junior, 2010.
      6. Histórias pintadas de azul / Roberto Chichorro, 2010.
      7. Hinc Illae Lacrimae! – Studi in memoria di Carmen Maria Radulet, 2 vols., org. Gaetano Platania, Cristina Rosa e Mariagrazia Russo, 2011.
      8. Conversas de homens no conto angolano. Breve antologia (1980-2010) / António Quino, 2011.
      9. Balada dos homens que sonham. Breve antologia do conto angolano / António Quino, 2012.
      10. Depois do silêncio: Escritos sobre Bartolomeu Campos de Queirós, org. Lucilia Soares & Ninfa Parreiras, 2013. 
      11. Entre o choro e o canto. Contos de guerra angolanos / João Melo, a publicar.

      ACERCA DO AUTOR

      24/03/2014

      ELEGIA DO AMOR, por Teixeira de Pascoaes

      Sainte Chapelle, Paris

      I


      Lembras-te, meu amor,
      Das tardes outonais,
      Em que íamos os dois,
      Sozinhos, passear,
      Para fora do povo
      Alegre e dos casais,
      Onde só Deus pudesse
      Ouvir-nos conversar?
      Tu levavas, na mão,
      Um lírio enamorado,
      E davas-me o teu braço;
      E eu triste, meditava
      Na vida, em Deus, em ti...
      E, além, o sol doirado
      Morria, conhecendo
      A noite que deixava.
      Harmonias astrais
      Beijavam teus ouvidos;
      Um crepúsculo terno
      E doce diluía,
      Na sombra, o teu perfil
      E os montes doloridos...
      Erravam, pelo Azul,
      Canções do fim do dia.
      Canções que, de tão longe,
      O vento vagabundo
      Trazia, na memória...
      Assim o que partiu
      Em frágil caravela,
      E andou por todo o mundo,
      Traz, no seu coração,
      A imagem do que viu.
      Olhavas para mim,
      Às vezes, distraída,
      Como quem olha o mar,
      À tarde, dos rochedos...
      E eu ficava a sonhar,
      Qual névoa adormecida,
      Quando o vento também
      Dorme nos arvoredos.
      Olhavas para mim...
      Meu corpo rude e bruto
      Vibrava, como a onda
      A alar-se em nevoeiro.
      Olhavas, descuidada
      E triste... Ainda hoje escuto
      A música ideal
      Do teu olhar primeiro!
      Ouço bem a tua voz,
      Vejo melhor teu rosto
      No silêncio sem fim,
      Na escuridão completa!
      Ouço-te em minha dor,
      Ouço-te em meu desgosto
      E na minha esperança
      Eterna de poeta!
      O sol morria, ao longe;
      E a sombra da tristeza
      Velava, com amor,
      Nossas doridas frontes.
      Hora em que a flor medita
      E a pedra chora e reza,
      E desmaiam de mágoa
      As cristalinas fontes.
      Hora santa e perfeita,
      Em que íamos, sozinhos,
      Felizes, através
      Da aldeia muda e calma,
      Mãos dadas, a sonhar,
      Ao longo dos caminhos...
      Tudo, em volta de nós,
      Tinha um aspeto de alma.
      Tudo era sentimento,
      Amor e piedade.
      A folha que tombava
      Era alma que subia...
      E, sob os nossos pés,
      A terra era saudade,
      A pedra comoção
      E o pó melancolia.
      Falavas duma estrela
      E deste bosque em flor;
      Dos ceguinhos sem pão,
      Dos pobres sem um manto.
      Em cada tua palavra,
      Havia etérea dor;
      Por isso, a tua voz
      Me impressionava tanto!
      E punha-me a cismar
      Que eras tão boa e pura,
      Que, muito em breve – sim! –,
      Te chamaria o céu!
      E soluçava, ao ver-te
      Alguma sombra escura,
      Na fronte, que o luar
      Cobria, como um véu.
      A tua palidez
      Que medo me causava!
      Teu corpo era tão fino
      E leve (oh meu desgosto!)
      Que eu tremia, ao sentir
      O vento que passava!
      Caía-me, na alma,
      A neve do teu rosto.
      Como eu ficava mudo
      E triste, sobre a terra!
      E uma vez, quando a noite
      Amortalhava a aldeia,
      Tu gritaste, de susto,
      Olhando para a serra:
      — Que incêndio! — E eu, a rir,
      Disse-te: — É a lua cheia!...
      E sorriste também
      Do teu engano. A lua
      Ergueu a branca fronte,
      Acima dos pinhais,
      Tão ébria de esplendor,
      Tão casta e irmã da tua,
      Que eu beijei, sem querer,
      Seus raios virginais.
      E a lua, para nós,
      Os braços estendeu.
      Uniu-nos num abraço,
      Espiritual, profundo;
      E levou-nos assim,
      Com ela, até ao céu...
      Mas, ai, tu não voltaste
      E eu regressei ao mundo.


      II



      Um raio de luar,
      Entrando, de improviso,
      No meu quarto sombrio,
      Onde medito, a sós,
      Deixa, a tremer, no ar,
      Um pálido sorriso,
      Um murmúrio de luz
      Que lembra a tua voz…
      O Outono, que derrama
      Ideal melancolia
      Nas almas sem amor,
      Nos troncos sem folhagem,
      Deixa a vibrar, em mim,
      Saudosa melodia,
      Dolorida canção,
      Que lembra a tua imagem.
      A noite, que escurece
      Os vales e os outeiros,
      E que acende, num bosque,
      A voz do rouxinol
      E a estrela que protege
      E guia os pegureiros;
      A lágrima do céu
      Ao ver morrer o sol,
      Acorda, no meu peito,
      Infinda e etérea dor,
      Que à memória me traz
      A luz do teu olhar…
      Tudo de ti me fala,
      Ó meu longínquo amor:
      As árvores, a névoa,
      Os rouxinóis e o mar.
      Se passo por um lírio,
      Às vezes, distraído,
      Chama por mim, dizendo:
      “Oh! não te esqueças dela!”
      Diz-mo também, chorando
      O vento dolorido.
      Diz-mo a fonte, a cantar,
      Diz-mo, a brilhar, e estrela.
      E vejo, em toda a luz,
      Teus olhos a fulgir.
      Como adivinho, em tudo,
      A alma que perdi!
      Não encontro uma flor,
      Sem o teu nome ouvir.
      Não posso olhar o céu,
      Sem me lembrar de ti!
      Por isso, eu amo o pobre,
      O triste e a Natureza,
      A mãe da humana dor,
      Da dor de Deus a filha.
      Meu coração, ao pé
      Dum pobrezinho, reza;
      Canta, ao lado dum ninho,
      Ao pé da estrela, brilha.
      O meu amor por ti,
      Meu bem, minha saudade,
      Ampliou-se até Deus,
      Os astros alcançou.
      Beijo o rochedo e a flor,
      A noite e a claridade.
      São estes, sobre o mundo
      Os beijos que te dou.
      Hás-de senti-los, sim.
      Doce mulher de outrora.
      Ó roxo lírio de hoje,
      Ó nuvem actual!
      Como dantes teu rosto,
      A rosa ainda hoje cora;
      Beijo-te, sim, beijando
      A rosa virginal.
      Teu espectro divaga,
      Ao longo dos espaços.
      Teu amor, feito luz,
      Desce do Firmamento.
      Se abraço um verde tronco,
      Eu sinto, entre os meus braços,
      Teu corpo estremecer,
      Como uma flor, ao vento.
      Soluça a tua dor
      Nas infinitas mágoas,
      Que, no fumo da tarde,
      Eu vejo, além, subir…
      E paira a tua voz
      No marulhar das águas,
      No murmúrio que sai
      Das pétalas a abrir.
      Se os lábios vou molhar
      Nas ondas duma fonte,
      Queimam meu coração
      Tuas lágrimas salgadas.
      E, quando acaricia
      O vento a minha fronte,
      Eu bem sinto, sobre ela,
      As tuas mãos sagradas.
      Quando a lua, no Outono,
      Envolta em luz funérea,
      Morta, vai a boiar
      Nas águas do Infinito,
      Doira meu frio rosto
      A palidez etérea,
      Que dantes emanava
      O teu perfil bendito.
      Quando, em manhãs d’Abril,
      Acordo, de repente,
      E vejo, no meu quarto,
      O sol entrar, sorrindo,
      Julgo ver, ante mim,
      Teu corpo resplendente,
      Tua trança de luz,
      Teu gesto suave e lindo.
      Descubro-te, mulher,
      Na Natureza inteira,
      Porque entendo a floresta,
      A névoa, o céu doirado,
      A estrela a arder, no Azul,
      A lenha, na lareira
      E o lírio que, na cruz
      Do Outono, está pregado.
      Falas comigo, sim,
      Da dor, do bem, de Deus…
      Repartes o meu pão,
      Amor, pelos ceguinhos…
      E pelas solidões
      Os pobres versos meus,
      Como os pobres que vão,
      A orar, pelos caminhos.
      És a minha ternura,
      A minha piedade,
      Pois tudo me comove!
      O zéfiro mais leve
      Acende, no meu peito,
      Infinda claridade;
      E a brancura do lírio
      Enche meu ser de neve.
      Todo eu fico a cismar
      Na louca voz do vento,
      Na atitude serena
      E estranha duma serra;
      No delírio do mar,
      Na paz do Firmamento
      E na nuvem, que estende
      As asas, sobre a terra.
      Todo eu fico a cismar,
      Assim como que esquecido,
      Ante a flor virginal
      E o sol enamorado…
      Ante o luar que nasce,
      Ao longe, dolorido,
      Dando às cousas um ar
      Tão triste e macerado.
      Todo eu medito e cismo…
      Um vago e etéreo laço
      Prende-me ao teu imenso
      E livre coração,
      Que abrange o mundo inteiro
      E ocupa todo o espaço,
      E que vai povoar
      A minha solidão.
      Por isso, eu vivo sempre,
      Em doce companhia,
      Com o pobre que pede
      E a estrela que fulgura;
      E, assim, a minha alma,
      Igual à luz do dia
      Derrama-se, no céu,
      Em ondas de ternura.
      Sou como a chuva e o vento
      E a sombra duma cruz!
      Lira, que a mais suave
      Aragem faz vibrar…
      Água que, ao luar brando,
      Em nuvens se traduz;
      Fruto que amadurece,
      À luz dum claro olhar…
      Pedra que um beijo funde
      E místico vapor,
      Que um hálito condensa
      Em pura gota de água…
      Sou aroma que um ai
      Encarna em triste flor;
      Riso que muda em choro
      A mais pequena mágoa.
      Vivo a vida infinita,
      Eterna, esplendorosa.
      Sou neblina, sou ave,
      Estrela, Azul sem fim,
      Só porque, um dia, tu,
      Mulher misteriosa,
      Por acaso, talvez,
      Olhaste para mim.


      Sainte Chapelle, Paris

      13/03/2014

      "Ama como a estrada começa" - Mário Cesariny




      Ama como a estrada começa

      Mário Cesariny







      Fonte: «Estado segundo, XXI», in Antologia pessoal da poesia portuguesa / Eugénio de Andrade. 3.ª ed. Porto: Campo das Letras, 2000, p. 488.